MENDOZA

Mendoza é daqueles lugares que vão se revelando aos poucos, num jogo de aparências que pode até confundir o visitante desavisado. Da janela do avião, por exemplo, tudo o que se vê lá embaixo é uma paisagem seca a perder de vista, dando a impressão de que o desembarque será num deserto e não no maior centro vinícola da América do Sul. Algum tempo depois, descobre-se que Mendoza é tanto uma coisa quanto outra — e, de quebra, ainda oferece atrativos inesperados, que nem faziam parte do plano inicial da viagem.

A região, no centro-oeste da Argentina, é de fato desértica, com sol muito forte e chuvas raras. Os vinhedos não cobrem nem 4% de seu território de 148000 quilômetros quadrados, uma área comparável à do Ceará. Mas são suficientes para demonstrar como certos desertos podem ser tão agradavelmente produtivos.

Conheça as maravilhas desta cidade argentina abençoada por Baco. Mendoza não é nenhuma Las Vegas, até porque, para chegar aonde chegou, não investiu nem um centésimo da montanha de dinheiro gasta nos hotéis e cassinos da cidade americana. Las Vegas, como se sabe, transformou um areal do Estado de Nevada, nos Estados Unidos, num dos maiores pólos turísticos do mundo, porque havia vontade política — e caixa — para fazer isso. Mendoza, não. Só precisou usar com sabedoria os próprios recursos naturais para criar oásis fantásticos, e neles produzir 1 bilhão de litros de vinho por ano.

Os recursos naturais, que fazem toda a diferença aqui, estão nas montanhas dos Andes, estendidas até o horizonte, na fronteira com o Chile. São elas que capturam a umidade do ar em grandes altitudes e formam as geleiras que alimentam os rios da região. Graças à cordilheira, os mendocinos contam com um suprimento de água regular, que sabem aproveitar muito bem, com um eficiente sistema de represas e canais de irrigação. Essa habilidade de lidar com a água das geleiras foi herdada dos índios que viviam aqui antes da chegada de Colombo. Está disseminada por toda a região, mas é especialmente exemplar na cidade de Mendoza, de 110000 habitantes, que é a capital da província de mesmo nome.

Com uma brutal oferta de vinhos de ótimo custo-benefício, as adegas locais são uma tentação para os brasileiros. Para quem quiser ir além dos vinhos e degustar um pouco de tudo, o ideal é se hospedar na arborizada capital da província, ponto de partida de todas as excursões pela região. O Club Tapiz é uma opção charmosa e sossegada nos arredores da cidade. A capital, Mendoza, salta aos olhos no meio do deserto como uma das cidades mais arborizadas do mundo. Está repleta de praças e parques enormes. Suas ruas, cortadas num tabuleiro de quadrados perfeitos — fruto da reconstrução planejada, após um terremoto arrasador em 1861 —, são tomadas por plátanos centenários que fazem sombra de uma calçada a outra. Os moradores orgulham-se de dizer que há, na cidade, pelo menos uma grande árvore para cada habitante, e o segredo dessa pujança são os canais que correm junto ao meio-fio, levando a água do degelo para as plantas. Nas esquinas há aberturas que permitem ver esses pequenos córregos, chamados pelos locais de acequias — aberturas, aliás, que exigem atenção dos pedestres, pois não têm proteção.

A combinação do solo arenoso — que seria considerado pobre para qualquer outra cultura — com luz abundante e água na medida certa, controlada por gotejamento, é perfeita para os vinhedos. Mendoza descobriu a vocação para os vinhos logo depois de sua fundação, em 1561, e tornou-se o maior centro produtor da Argentina com a chegada da ferrovia, em 1880. A partir daí, prosperou e chegou a produzir até mais bebida do que hoje. Mas só entrou no circuito gastronômico dos viajantes nos últimos quinze anos, quando seus vinhos passaram a ser mais conhecidos pela qualidade do que pela quantidade.

Até o início dos anos 1990 o que jorrava em Mendoza era um vinho rústico e barato, capaz de atender o alto consumo nacional, mas não de atrair paladares mais refinados. A virada veio com a introdução de técnicas vinícolas modernas por alguns produtores de olho no mercado externo. Um desses pioneiros foi Nicolás Catena Zapata, herdeiro de uma tradicional vinícola de Mendoza, mas que nas décadas de 1970 e 1980 parecia mais interessado em sua carreira acadêmica nos Estados Unidos. Em 1981, quando dava aulas de economia na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Nicolás pôde acompanhar de perto o esforço dos vinhateiros da região de Napa Valley — a mais promissora daquele Estado americano — para aproximar seus vinhos do padrão de excelência dos franceses. Perguntou a si mesmo: “Se eles podem fazer isso na Califórnia, por que não podemos fazer em Mendoza?”.

Nicolás abandonou a universidade, voltou para casa e passou a empreender sucessivos testes com uvas plantadas em altitudes e microclimas diferentes, sob a supervisão de três renomados consultores internacionais. Um desses especialistas, o americano Paul Hobbs, contratado para desenvolver a uva branca Chardonnay em Mendoza, insistiu em fazer experimentos também com uma cepa que até então não havia surtido grandes resultados em nenhum lugar do mundo. Era a Malbec, espécie que já vinha perdendo espaço na região, desanimadora até no nome: significa “mau gosto”, em francês.

A cada safra, novos produtores passaram a investir na qualidade dos vinhos e o progresso foi notável, em todas as direções. Mas nenhuma uva brilhou mais do que a antes tão mal-amada Malbec. Foi ela que deu personalidade aos vinhos de Mendoza, chamando finalmente a atenção dos grandes conhecedores da bebida. O americano Robert Parker, o mais respeitado — e temido — analista de vinhos do planeta, capaz de derrubar ou elevar às alturas o preço daqueles que escolhe para suas degustações, deu nota 95, de um máximo de 100, ao Catena Zapata Malbec de 1997.

Em poucos anos, Mendoza — não só a cidade, mas toda a província, que é dividida em cinco grandes regiões de vinhedos — virou um acontecimento. Passou a receber cada vez mais visitantes e a ser tratada pelos especialistas como uma das capitais mundiais do vinho, ao lado de Bordeaux (França), Florença (Itália), Bilbao (Espanha), Porto (Portugal), São Francisco (Estados Unidos), Melbourne (Austrália) e Cidade do Cabo (África do Sul). Nos últimos seis anos, dobrou a quantidade de hotéis, que hoje chega a 450, com um total de 22 000 leitos. As vinícolas prepararam-se para atender os sedentos viajantes com degustações para todos os bolsos — até porque os vinhos de Mendoza continuam imbatíveis no custo-benefício. Algumas casas foram além, incorporando às suas instalações restaurantes requintados e pousadas estilosas.

Jantar sob as estrelas no restaurante Francesco, de alta cozinha italiana. As mesas armadas no jardim dão um toque especial às refeições Nos arredores da capital, duas vinícolas se destacam pela sofisticação: o Club Tapiz e a Bodega Vistalba. A primeira reciclou um casarão de 1890 para abrigar sete suítes com vista para os vinhedos, um pequeno spa, restaurante e escola de cozinha. A Vistalba foi ainda mais fundo e convidou o estrelado chef francês Jean-Paul Bondoux para instalar ali seu terceiro restaurante. Para se ter uma idéia do que isso significa, basta lembrar que os outros dois restaurantes de Bondoux — um no mítico Hotel Alvear, de Buenos Aires; outro em Punta del Este, no Uruguai — são os únicos da América do Sul com o selo de qualidade da Relais & Chât eaux (os demais sul-americanos que integram essa rede francesa são todos hotéis). Para os hóspedes, a Vistalba oferece um tratamento ainda mais exclusivo, em duas suítes de 70 metros quadrados voltadas para a cordilheira.

No Vale de Uco, já a 100 quilômetros da cidade de Mendoza, a melhor opção de hospedagem está na vinícola Salentein, que construiu oito apartamentos divididos em duas aconchegantes casas de campo. Já em San Rafael, a 230 quilômetros ao sul da capital, outro endereço glamouroso é a Finca Viñas del Golf, que, como o nome indica, tem o atrativo extra de um campo de golfe de nove buracos.

Quem vem a Mendoza pela primeira vez, porém, é natural que prefira conhecer um pouco de tudo, sem se fixar muito num só lugar — é esse, afinal, o princípio de uma boa degustação. Hospedado na capital, estará no ponto de partida de todas as excursões e mais perto das lojas de vinho e de outras tentações argentinas, como os alfajores, as roupas de cashmere e os casacos de couro. Se quiser programas mais variados, pode intercalar as visitas às vinícolas com um rafting nas corredeiras do Rio Mendoza, um passeio a cavalo ou a viagem de dia inteiro até o mirante do Aconcágua, o ponto culminante das Américas, com 6 962 metros de altura. A subida da cordilheira é feita por uma estradinha de terra chamada Caracoles de Villavicencio, também conhecida como Rota del Año, por s uas 360 curvas. É emoção garantida — em dose exagerada, aliás, para quem não imaginava que iria rodar algumas horas à beira de abismos.

Mendoza tem tantas vinícolas que nem mesmo as autoridades sabem direito quantas são. Os números variam de 600 a 1200. Todas estão abertas a visitação, mas algumas exigem agendamento antecipado, como a Catena Zapata. Nas mais próximas da capital, é possível, ainda, combinar as visitas com caminhadas ou passeios de bicicleta — há agências que cuidam disso.

Algumas vinícolas se destacam ainda por atrativos adicionais. La Rural, por exemplo, uma das casas mais tradicionais de Mendoza, abriga um museu do vinho que é considerado o mais importante do continente, com cerca de 5000 peças. E a Familia Zuccardi propõe um programa completo, com a exposição superdetalhada de todas as fases do processo de fabricação, a degustação de dez vinhos da casa com a orientação de um enólogo e o almoço em uma agradável sala de refeições com vista para os jardins da propriedade. De meados de fevereiro a abril, oferece aos visitantes até a possibilidade de participar da colheita — pagando pela experiência, naturalmente.

José Alberto Zuccardi, o diretor da vinícola, é um grande anfitrião e produtor entusiasmado. Conta que está fazendo testes com nada menos que quarenta novas variedades de uva, porque acredita na potencialidade da região para muitas delas. Ele costuma incluir alguns desses vinhos experimentais nas degustações e ouvir as opiniões dos visitantes. Caso agradem bastante, Zuccardi passa a engarrafá-los, como já vem acontecendo com varietais de uvas muito pouco conhecidas, como Ancellota, Bourboulenc, Marsanne e Mourvèdre. Quem sabe não se descobre uma nova Malbec?

O curioso é que, de todos os seus produtos inovadores, o que recebeu os maiores elogios até agora também leva a Malbec, embora numa fórmula diferente. É o Malamado Malbec, um vinho fortificado que lembra muito o Porto. Zuccardi garante que o nome é uma sigla (“Malbec à maneira de Oporto”). Mas não deixa de ser irônico com a uva mais bem-casada com Mendoza.

Fonte: proximaviagem.ig.com.br

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